SELO: As voltas que a vida faz – Por Joel Amba

“Cuidado com as voltas que a vida faz. Hoje lanças as palavras, mas amanhã sentes o efeito delas”. No distrito de Muidumbe, na província de Cabo Delgado, havia um jovem de nome Wakazi, que vivia com a sua avó. Wakazi nunca conheceu os seus pais, pois tinham perdido a vida quando ele ainda era muito pequeno.

 

Wakazi era um jovem muito inteligente que, por sinal, era um dos únicos indivíduos da sua aldeia que haviam terminado a 12ª classe. Mais tarde, Wakazi foi economizando o seu dinheiro em um cofre caseiro, através da realização de trabalhos na machamba da sua avó, para pagar a matrícula na faculdade, caso conseguisse passar no exame de admissão.

O jovem Wakazi concorreu para o curso de Engenharia Civil, numa universidade privada na cidade de Pemba, que para o seu ingresso tinha de fazer-se um exame psicotécnico. No dia de exame, sentaram-se todos candidatos numa mesma sala aberta onde cada um explicava o que era engenharia civil. Devido ao sotaque que ele tinha, após a sua explanação, o examinador disse-lhe ao ouvido:

– Caro candidato, tu queres concorrer mesmo para este curso, enquanto nem pelo menos falas devidamente o português, vais conseguir? Wakazi ficou muito triste e sentiu-se intimidado quando ouviu aquilo mas não desanimou, continuou firme, de tal modo que até foi apurado para o curso. Durante o semestre lectivo conheceu vários docentes, cada um com o seu comportamento. Um dos docentes exigia bastante aos alunos de tal forma que, quem não tivesse, no limite de uma semana, alguns materiais, seria interdito de assistir às aulas. Portanto, ele exigia que os estudantes tivessem na sua posse: máquinas de calcular específicas e especiais (por coincidência eram caras), laptops com grandes capacidades de armazenamento de informação (também por coincidência eram caros) e equipamento de proteção pessoal usado nas obras. Totalizando os preços de aquisição do material que o docente exigia, dava um valor que abalava o jovem estudante. O Wakazi não tinha como comprar estes recursos, daí que foi por várias vezes aproximar o docente para lhe explicar sobre a sua situação da pobreza: – Docente, não tenho condições para conseguir comprar estes materiais em uma semana, mas estou fazendo o meu máximo para poder ter. Peço que não me penalize, terei brevemente, vivo somente com a minha avó fora da cidade, e ela não tem condições financeiras. Farei o meu máximo!… E o docente lhe respondeu: – Estudante, este curso não é para pobres, se não tens condições, deixe de fazer este curso e vá fazer o curso numa universidade pública. Eu não posso tolerar essa irresponsabilidade!… Surgiu mais um motivo para entristecer o jovem estudante: o Wakazi não podia assistir às aulas por não possuir o material exigido pelo docente. Foi perdendo as aulas mas, para recuperar as matérias, sempre recorria aos seus colegas que tinham os materiais, porém, quando fosse aos testes tirava notas altas e máximas da turma. Assim foi tendo vários desafios duros com os docentes. Entretanto, mesmo com as humilhações conseguiu terminar o seu curso e foi contratado para trabalhar na mesma faculdade e, como prémio do seu bom aproveitamento pedagógico, foi nomeado para ser o director da sua própria faculdade: era o fruto do mérito e dedicação. Os docentes que lhe humilhavam, passaram a ser os seus subordinados. Em fim, numa certa reunião com todos os docentes da faculdade, Wakazi disse o seguinte: – Quando a gente não sabe se colocar no lugar do outro, a vida coloca a gente lá para aprender na prática. Cuidado com as voltas que a vida faz. Hoje lanças as palavras, mas amanhã sentes o efeito delas. Acredito que aquele docente não desmaiou pelo facto de ele ter coração duro e mau. Assim o director da faculdade, Senhor Wakazi, deixou este ensinamento não só para os docentes, mas para todo o mundo que acompanhou a história do percurso da sua vida naquela instituição de ensino superior. A ti meu irmão, a ti minha irmã, peço para reter e difundir esta lição em nome do Wakazi!... Por Joel Amba

 

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